Sexta-feira, Julho 17, 2009
[CONTO] O Presente
E então eles terminaram... Ou ela terminou, como ele corrigiria se assim lhe dissessem. Não porque o amor acabou, mas porque tornou-se insustentável. E tudo que restou foi o presente. Aquele preparado durante meses, até que juntasse todas as partes, reunindo-as num só pacote. Uma caixa cheia de "eu quero's", que seria entregue no Natal.
E ali estava ele, naquela agência dos Correios, esperando a fila andar, e a mente vagando entre o futuro que não viria, e o passado que já havia sido.
Os primeiros meses foram os piores. O passado era seu carrasco, açoitando-o com as lembranças. As boas eram as piores, as mais dolorosas, abrindo feridas cortantes. Às vezes sufocava. Em outras sentia engasgos. Torrentes de lágrimas que queimavam fluíam a cada nova recordação.
Foram os dias mais insuportáveis.
O presente... Escolheu cada parte que o compunha com muito cuidado, procurando lembrar-se de tudo que ela havia dito que queria enquanto estavam juntos. Seria o melhor Natal de todos! E o presente era só uma parte do que havia planejado.
Ali, com o pacote nas mãos, lembrava-se dos dias em que o céu tinha aquele tom de fim dos tempos, como o anúncio de um dilúvio prometido por um deus tirano. Naqueles dias só desejava ser atropelado na rua, que o chão desabasse sob seus pés, ou que o Sol entrasse em colapso gravitacional, transformasse num buraco negro, e engolisse a Terra sem a menor piedade.
Agora não sabia definir muito bem o que sentia por ela. No início só conseguia desejar-lhe o pior, por ter feito com que vivesse os mais dolorosos e insuportáveis dias de sua vida. Desejava que tudo acontecesse da pior forma possível com ela. Que nada desse certo. Que ela fosse punida por aquilo que ele estava sentindo. Foi desse jeito que entendeu quão tênue era a linha que separava o amor do ódio.
Mas, e hoje? O que sentia por ela? Não era amizade, pois a enxergava como um retrocesso ao que tiveram juntos. Mas ainda era amor? Ou era algo entre um e outro? Não, isto também seria um retrocesso... Talvez fosse algo além deles. Era uma vontade de olhar pra ela de perto, de estar com ela sem querer possuí-la. Era um sentimento mais leve, isto ele podia dizer. Sentia vontade de abraçá-la e beijá-la, de passear de mãos dadas por lugares onde deixaram sua marca, e por outros onde queriam deixá-la.
Com o tempo conseguiu domar parte das lembranças. Elas não vinham mais com tanta freqüência. O choro convulsivo não mais acompanhava cada boa recordação que vinha à tona sem aviso. Estava começando a esquecer-se? Não, de forma alguma. Estava mais pra deixar um pouco de lado uma parte de sua vida e concentrar-se em outras. Mas aquilo ainda não o satisfazia.
A verdade era que ali, segurando a caixa, tudo que ele desejava era dobrar o tempo sobre si mesmo, sobrepondo o presente no passado, e entregá-la nas mãos dela, ver de perto o brilho de fascínio em seus olhos de quasar, aquele sorrisão abrir-se em seu rosto, ofuscando tudo em torno dela, as mãos recebendo cuidadosamente o pacote, abrindo-o sem pressa, evitando que o papel se rasgasse, e pegando cada "eu quero" como se fosse o tesouro mais precioso e frágil do mundo. Aquela empolgação infantil brotando de seu peito, espalhando-se por todo o ambiente, tornando cada cor ali presente mais viva, palpitante. Queria sentir de perto a reação dela quando lesse cada bilhete que pregara em cada embrulho. E desejava, mais que tudo, saber como ela reagiria à única surpresa que conseguiu manter até ali, quando abrisse o mais secreto dos embrulhos.
Sentia falta daquele olhar de menina, sua menina, e daquela sua voz de criança que brotava dela sempre que recebia um presente dele. Seria o melhor Natal de todos! O mais inesquecível!
E diante do balcão dos Correios, enquanto via um vulto multicolorido abrindo-lhe caminho... Enquanto dava o primeiro passo adiante, e depois outro... Enquanto deitava a caixa sobre o tampo de madeira... Enquanto a atendente pesava o pacote e calculava o valor do frete de envio... Enquanto tirava a carteira do bolso, e dela um punhado de notas mal contadas... Enquanto tudo aquilo acontecia em torno de seu corpo, sua mente estava em outro mundo, outro plano de existência. Ele pensava no ponto final que meses antes enxergava quando olhava praquele dia, praquele "hoje" que vivia sem estar presente. Pensava em como o encarava agora. Não sentia nele um tom conclusivo. Não era o virar de páginas que esperava. Nem o recomeço que desejava. Estava mais pra reticências. Pra algo incerto.
Tudo que ele desejava naquele instante era que aquele pacote cheio de "eu quero's" despertasse nela o desejo de dar-lhe uma nova chance. Não um recomeço pra ele, mas um reinício pra ambos. Não um fim, mas um pra sempre... Daquele tipo que só eles conseguiam fazer. Um pra sempre e mais seis meses... E o melhor Natal de todos!
Postado por Rodrigo Ferreira às 10:05:21 PM
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Quinta-feira, Julho 16, 2009
[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 5
"Warm Embrace" de Alifsu17
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1º capítulo | 2º capítulo | 3º capítulo | 4º capítulo
Tontura. Repuxo. Piscada. Roger. Olhar triste e apaixonado. Noite fria de vento cortante. Rua vazia. Céu com nuvens. Lua minguante. Calçada ao lado de um Monza cinza. Silêncio incômodo.
- Você não pode fazer isto comigo, Paula! Eu ainda te amo! - Roger e seus cabelos castanhos encaracolados, seus olhos azuis-cinzentos, sua pele queimada, sua costumeira camisa de mangas curtas laranja desabotoada por cima de outra branca, calça jeans desbotada e tênis brancos surrados.
- A maioria dos namoros termina assim, Roger. Raramente os dois deixam de amar ao mesmo tempo.
- Mas eu não quero deixar de te amar! Será que não entende?
- Claro que eu entendo! Também não queria parar de amar você, mas aconteceu! Não podemos controlar um sentimento tão além de nós feito o amor! Ele vem quando quer e parte quando esgota.
- Não, isto não é verdade! O amor depende de nós pra existir! Depende de nossa vontade para que persista!
- Não depende, Roger. Infelizmente não. Por mais que eu não queira te magoar, em consideração a quem você foi pra mim, é inevitável. Alguém sempre sofre nessas horas. Eu sofro, não tanto quanto você, mas sofro, como a amiga que quero...
- Não, NÃO!! Por favor, não termina essa frase, tá? (...) Deus, como eu detesto estar vivendo um clichê agora..!
- Não é só um "clichê", Roger, é uma das alternativas que temos, uma que eu não quero desperdiçar.
- Paula, será que é tão difícil entender que... (ó Deus da Criatividade, que me perdoe por dizer isto) a pior coisa que pode acontecer entre nós é continuarmos como amigos?!
- Não, a pior coisa é começarmos a nos odiar, e da minha parte eu desejo sincera e profundamente que isto não aconteça. Não quero alimentar qualquer tipo de sentimento negativo por você.
- E eu sou a última pessoa desse... universo (!) que desejaria esse fim pra nós dois, Paula! Mas não sei se conseguiria evitar que isto acontecesse se você for adiante com isto.
- Roger... (...) "Fim" é uma questão de escolha. Se você realmente acha que o melhor a fazer é terminarmos definitivamente, sem qualquer possibilidade de prosseguirmos nosso relacionamento em outro nível, o da amizade, tudo bem... Eu aceito, muito relutantemente, mas aceito. Se for mesmo o melhor pra você, eu faço esse sacrifício. Só não quero te magoar mais do que já está.
(...)
- Eu... - luz da lua minguante refletindo dolorosamente em seus chorosos olhos - Não sei mais o que te dizer... - nariz começando a escorrer - pra te convencer de não desistir de mim...
- Eu não estou desistindo de você... - os braços dela envolvem-no carinhosa e compassivamente - Só estou te libertando de um relacionamento que não tem mais um futuro da forma como está. Meu amor por você se foi. Eu não te amo mais, Roger! Mas isto não significa que rejeito o que você ainda sente por mim. Eu não posso controlar isto - lágrimas quentes pingam em seus ombros - Não posso tirar esse amor daí de dentro do seu coração. Só posso rezar para que ele não te consuma, não te machuque tanto quanto estou te machucando agora. Eu não conseguiria viver em paz se soubesse que fui responsável por sua ruína.
- Então não seja... - ele finalmente retribui o abraço, apertando-a forte e docemente.
- Isto não é algo que eu posso fazer sozinha. Depende de você também... Especialmente de você! Eu sei que você é forte! Sei que tem condições de lidar com isto, e terminar como um vencedor. Sei porque foi esta força que você tem um dos motivos por eu ter começado a gostar de você. Mas também sei que no começo é difícil nos lembrarmos dessa força que temos em nós, ter acesso a ela e usá-la pra nos fortalecer. Mas passado o choque, você vai encontrar um caminho pra chegar até ela.
Vento frio. Um leve tremor parte dela.
- Eu adoraria continuar te amando, mas... - sente em seu peito o coração de Roger palpitando, bombeando sangue e amor por ele todo, fornecendo o calor que agora usava pra aquecer ambos, protegendo-se do ar gelado daquela triste noite de lua minguante.
Uma lágrima escorre de seu olho direito. Estava quente, deslizando por seu rosto, terminando pendurada no lado direito do queixo. Despencou. Veio o piscar do mundo, a tontura, o repuxo, e o retorno ao degrau vermelho.
Desta vez ainda segurava a folha em sua mão. Sentiu seus olhos molhados: "As lágrimas foram reais... (como se todo o resto não tivesse sido...)"
Observou novamente a folha arrancada, mas não leu a frase. Por mera curiosidade virou-a ao contrário, e para a sua surpresa encontrou isto escrito em seu verso:
13 de dezembro de 2005, com 22 anos, 3 meses, 2 dias, 22 horas, 17 minutos, 55 segundos
Olhou para o alto onde ainda pairava o aglomerado flutuante de árvores contidas em seus respectivos cubos de vidro. "Em que ano estou?! E que lugar é este?!"
[CONTINUA...]
Postado por Rodrigo Ferreira às 9:33:57 PM
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[CONTO] Sara em: "Irmão e Irmã"
"Brother dearest..." de meluseena
Sara: Vamos ganhar uma irmãzinha, Rê! Não é o máximo?!!
Renan: Não sei... Acho que não vou gostar dela. É filha do papai com aquela mulher.
Sara: Ela não tem culpa de ser filha dos dois, Renan!
Renan: Mesmo assim, eles moram lá longe. Nem vamos nos ver tanto.
Sara: Nas férias a gente vai pra lá.
Renan: Além disto, parece que o papai não liga mais pra gente...
Sara: Ele ainda gosta de nós!
Renan: Do jeito que a mamãe gosta?
Sara: A mamãe... Ela é outra história.
Renan: Não parece tão diferente assim. Ela tá com outra pessoa, do mesmo jeito que o papai.
Sara: Não parece mas é! Aquele desgraçado que ela tá namorando não presta!
Renan: Você acha o mesmo da namorada do papai.
Sara: Não acho o mesmo. Só não gosto dela.
Renan: Porque ela não gosta de você.
Sara: E também porque ela olha pra nós como se a gente fosse lixo.
Renan: Por que eles fizeram isto?
Sara: Fizeram o quê?
Renan: Escolheram ficar com pessoas tão más.
Sara: Talvez pra eles essas pessoas sejam boas.
Renan: Não são boas se só conseguem ser assim com eles.
Sara: Você tá certo. Mas é o que escolheram pra eles. E isto não importa, tá bem? A gente não pode deixar que essas pessoas façam com que a gente deixe de gostar da nossa irmãzinha que tá chegando.
Renan: Será que ela vai precisar de alguém como você pra gostar dela do jeito que eu precisei?
Sara: Por que diz isto?
Renan: Você sabe porque. Desde que a mamãe se separou do papai ela não gosta mais de nós.
Sara: Ela gosta sim. Especialmente de você.
Renan: Por quê?
Sara: Não importa...
Renan: Por que aquele cara tentou te...?
Sara: NÃO IMPORTA!!
Renan: Tá... Desculpa...
Sara: (...) Se ele tentar fazer algo comigo de novo ele vai descobrir o que é a fúria de uma valkíria! - bradou Sara, olhando como se estivesse em outro mundo.
Renan: O que é uma "valquíria"?
Sara: Outra hora eu te explico...
Renan: Sara... Será que eu sou uma pessoa má por querer que você fosse a minha mãe, no lugar da mamãe?
Sara: (...) Rê, eu... Não, Rê, você não é mau por querer isto. A mamãe...
Renan: Ela só gosta daquele cara.
Sara: Às vezes eu penso que ela nunca gostou de nós. É como se, enquanto ela estava com o papai, ela só fingisse que gostava... Como se ela quisesse mostrar que podia gostar de alguém do mesmo jeito que gosta dela mesma. Mas... depois que ela e o papai se separaram, parece que desistiu disto. E quando conheceu aquele cara, ela parece que... desistiu de nós também. Nós somos agora a lembrança do fracasso dela como mãe... Somos um peso na consciência dela, e... Aquele cafajeste... ele só ajuda ela a esquecer desse peso enquanto... enquanto se trancam naquele quarto...
Renan: Eles fazem tanto barulho quando estão lá...
Sara: Você não devia ficar reparando nestas coisas! Devia sair de casa nessas horas, escutar música. Fazer qualquer coisa que não te deixe ouvir...
Renan: Faço isto de vez em quando. Mas tem dias que não dá vontade de sair de casa, daí eu ouço.
Sara: Não deve ouvir! Você não precisa disto.
Renan: Eu só preciso que você fique perto de mim.
Sara: (...) Eu vou ficar... Você sempre foi meu herói, mesmo antes de nascer.
Renan: Como assim?!
Sara levou o punho fechado ao peito. Trazia um olhar distante no rosto. Uma leve ruga de dor na testa.
Sara: Nos dias mais... difíceis, era você que me salvava. A lembrança de que você estava chegando, era o que... levava minha mente pra longe... Pra lugares e tempos mais doces.
Renan: Eu não entendo.
Sara: Talvez entenda um dia... Talvez não. Mas não pense nisto! Eu te amo, Rê! - e abraçou-o com ternura.
Renan: Também amo você, Sara. (...) Me promete uma coisa...
Sara: O quê?
Renan: Promete que não vai se separar de mim nunca.
Sara: Eu... Eu prometo. - e sentiu um gosto amargo na boca, e que estava um passo mais próxima do inferno.
______________________________________
Sim, ela voltou, porque tinha novas histórias pra contar. Praqueles que leram sua primeira história por aqui, peço que considerem-na uma introdução, uma visão geral dessa pessoa/personagem que passou a compartilhar partes de sua vida com este humilde pretendente a escritor.
A partir de agora "Sara" será uma presença constante aqui neste blog, pelo menos enquanto ela chegar até mim com novos relatos, a fim de preencher algumas das muitas lacunas deixadas por aquela sua primeira aparição. Serão todos contos fechados, como este, episódios de uma vida que merece ser desvendada com um pouco mais de cuidado, atenção, e especialmente, apreço pelo que ainda precisa ser dito a seu respeito.
Como todas as vidas deste planeta, Sara tem uma que merece ser relatada, e sinto-me honrado em tornar-me responsável por isto. Espero estar à altura da tarefa.
Postado por Rodrigo Ferreira às 9:53:16 AM
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Quinta-feira, Julho 09, 2009
[CONTO] As Árvores da Memória - Capítulo 4
"Redical Solutions" de Creatyves
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O primeiro detalhe que chamou sua atenção foi a descoberta de que as folhas brancas presas aos galhos também traziam palavras escritas em si. As letras eram pretas, e no lugar de palavras isoladas formavam frases inteiras. Uma folha em especial destacou-se aos seus olhos. Dizia: "EU NÃO VOU PRO HOSPITAL!"
Resolveu arrancá-la do galho, e para a sua surpresa, tão logo fez isto, uma nova folha, idêntica, carregando em si as mesmas palavras, nasceu instantaneamente no lugar da retirada.
Encarou a folha que tinha na mão, e leu a frase novamente: EU NÃO VOU PRO HOSPITAL! No mesmo instante ficou tonta, sentiu um repuxo na cabeça, o cenário ao redor piscou, e no momento seguinte viu-se em outro lugar: ladrilhos caramelados cobriam o chão. Sobre ele cacos de vidro, uma pequena poça de sangue, na qual uma gota acabava de pingar. Seguiu a trajetória inversa da gota e encontrou sua fonte: um corte na palma de uma mão pequena e rosada. Era sua mão, só que diferente, mais jovem. Um tanto confusa, sentiu uma súbita vontade de gritar "AI!" e gritou. Apertou o corte na mão, procurando conter o sangue que escorria. Em seguida virou a cabeça para a esquerda e, varrendo o cenário com os olhos, viu-se em uma cozinha com paredes cobertas de azulejos amarelos, uma geladeira azul clara combinando com o fogão de mesma cor, uma pia com um balcão ao lado, e um armário embutido embaixo, com três portas de madeira. Bem no centro do cômodo ficava uma mesinha quadrada com quatro cadeiras. Sentiu duas discretas lágrimas desprenderem-se de seus olhos enquanto olhava com eles uma porta, por onde acabara de entrar uma mulher bonita de cabelos ruivos, usando um vestido de alcinhas verde-claro com bolinhas brancas e chinelos de dedo vermelhos. A surpresa e preocupação em seu semblante eram evidentes.
Veio correndo até ela, agachou-se, deixando seus olhos na altura dos dela, carinhosamente pegou a mão cortada, e perguntou:
- Mas o que foi que aconteceu, afinal?!
- Caí com o copo na mão - respondeu, enxugando uma lágrima teimosa.
- Ai, filha! Aposto que fez isto com pressa, como sempre!
- Eu não tava correndo, mãe! Só tropecei e caí!
- E geralmente quem tropeça faz isto porque tá fazendo algo com pressa!
- Ai mãe, não briga comigo agora, tá! O corte tá doendo!
- Eu imagino! Vem cá, vamos jogar uma água nele pra limpar.
- Tá...
Quando sua mãe levantou-se, teve uma idéia melhor de quão jovem estava. Devia estar no limiar entre a infância e a adolescência. Observava todo o cuidadoso ritual de sua mãe lavando sua mão na torneira da pia como se fosse a primeira vez, embora tudo aquilo lhe soasse nostálgico.
Olhou para a janela à esquerda enquanto a mãe enxugava a mão lavada com um pano de prato velho. A janela dava para um quintal gramado. Lá no fundo via uma casinha de cachorro bem debaixo da sombra de uma árvore.
Sentiu um aperto na mão cortada. Sua mãe havia amarrado o pano de prato em torno do corte.
- Pronto! Agora aperta bem firme o pano contra o corte, e continua assim. Eu vou buscar as chaves.
- Que chaves, mãe?!
- As do carro, oras! Vou te levar pro hospital pra cuidarem disto.
- EU NÃO VOU PRO HOSPITAL!
- Como não vai? Tá achando o que, menina? Que esse corte vai fechar sozinho?
- Claro que vai! Do mesmo jeito que fechou aquele que eu fiz no joelho mês passado.
- Filha, esse aí é diferente daquele! É mais fundo!
- É só caprichar mais no curativo!
- E é maior também!
- Aperta mais o esparadrapo que ele fecha direitinho!
- Ah, vai! Deixa de ser teimosa e vamos pra lá! Não custa nada! Eles resolvem isto rapidinho!
- Eu não vou, mãe! Tá resolvido! É só cuidar bem do corte que ele logo fecha. Não tô afim de deixar alguém costurar uma coisinha tão pequena assim. É perda de tempo!
- Ai meu Deus! Era só o que me faltava! Uma filha teimosa até na hora de ser socorrida!
De repente um latido veio do quintal, assustando-a. Parou de apertar a mão machucada. A tontura voltou, sofreu um novo repuxo na cabeça, o cenário mais uma vez piscou, e viu-se novamente sobre o degrau vermelho, diante da árvore de folhas brancas. A mão onde segurava a folha arrancada estava vazia.
- Mãe..? - seus olhos correram turvamente sem rumo sobre as centenas de folhas. Fixou-se em uma que trazia a frase: "Eu não te amo mais, Roger." Retirou-a do galho com certa cautela. Uma nova e idêntica a substituiu de imediato. Olhou atentamente a que segurava, e leu a frase em voz alta.
CONTINUA...
Postado por Rodrigo Ferreira às 8:28:00 PM
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[CRÍTICAS E REVIEW]
Watchmen - O Filme;
Wolverine - Inimigo de Estado;
24 horas - Final da 7ª temporada
Watchmen - O Filme
E enfim chegou minha hora de assistir a adaptação de uma das HQs que mais aprecio. Depois de meses esperando que saísse uma versão decente do filme, depois de passar esse mesmo tempo frustrado por não tê-lo assistido no cinema, graças ao "pragmatismo" do dono do que tem aqui em Guaxupé, finalmente, aqui estou, uns poucos minutos depois de conferi-lo.
Apesar de toda aquela empolgação que me arrebatava nos meses anteriores ao lançamento do filme ter se dissolvido depois de tanta espera, eu diria que, no final, foi uma boa eu ter assistido Watchmen longe daquela carga de expectativas que rodeavam o filme na época de seu lançamento. Também fiz bem em não chegar perto da versão original da história, apesar de ter comprado, semanas antes do filme sair, a versão encadernada que a Panini lançou (não resisti à tentação de tê-la na minha futura gibiteca). Portanto, assisti o filme como um admirador de sua fonte primeira, mas sem ter lembranças frescas da mesma em minha mente, o que não fez tanta diferença assim, pois já li Watchmen, até onde me lembro, umas três vezes.
Acho que vale a pena explicar aqui que minha relação com Watchmen, os quadrinhos, é um tanto parecida com minha ligação afetiva com De Volta Para o Futuro. Enquanto Watchmen foi a primeira HQ que conseguiu me deixar arrepiado e boqueaberto inumeras vezes enquanto lia aquela preciosidade criativa em 12 edições, a trilogia De Volta Para o Futuro foi a grande responsável por me deixar fascinado por histórias de viajantes no tempo, tanto que até hoje corro atrás de filmes com este tema do mesmo jeito que colecionadores de selos correm atrás dos mais raros. Não faz muito tempo enchi dois DVDs só com filmes do gênero.
Mas, voltemos a Watchmen. Achei-o, de um modo geral, uma ótima adaptação. Faltou um bocado pra atingir a impressionante complexidade da história em quadrinhos em que se baseou, mais pela necessidade de enxugar uma história que se desenvolve ao longo de mais de 40o páginas, cheia de subtramas cuja tarefa de adaptá-las todas para o formato seria impossível dentro de suas limitações.
Sempre falei com meus amigos leitores de quadrinhos que na minha cabeça o formato perfeito pra adaptar Watchmen seria uma mini-série televisiva de alto orçamento em 12 episódios de, no mínimo, uma hora cada. E mesmo assim ainda acabaria ficando alguns detalhes de fora. É um sonho que ainda nutro ver se realizando um dia, mas tenho consciência de que muito provavelmente não passará de um sonho.
Prefiro começar falando do que não gostei no filme. A começar pelo ator que escolheram pra interpretar Ozymandias. Matthew Goode não tem porte físico do original, é até um tanto franzino. Além disto, nos quadrinhos ele transmite um ar de serenidade que não vi no filme, o que contribui para acreditamos na inocência do personagem até a cartada final. Ele não se porta como um alienado com fome de grandeza, como se vê em diversos momentos do filme. Sempre o imaginava, enquanto lia suas falas nas HQs, usando um tom de voz contido, preciso e inalterado, semelhante ao usado pelo intérprete do Dr. Manhattan, este, na minha opinião, perfeitamente adaptado.
A forma como transmitiram para o cinema a "presença" de Manhattan é exemplar. Seu corpo irradiando aquele brilho azulado o tempo todo, o zumbido elétrico constante, seu físico de músculos exageradamente perfeitos e contrastados, como aquelas estátuas de deuses gregos. Merece aplausos a equipe de efeitos especiais.
É Manhattan que protagoniza uma das cenas melhor adaptadas da HQ, que por sua vez é um dos meus seguimentos preferidos da história, aquele em que presenciamos a origem do Dr. Manhattan sendo contada através de sua visão multifacetada do tempo. Confesso que fiquei arrepiado, sentindo um engasgo de choro reprimido na garganta enquanto a assistia, pois, opinião minha, não poderia ter ficado melhor. Se eu fosse o Alan Moore ficaria emocionado com ela. A composição minimalista de Phillip Glass tocando ao fundo... Um momento de genialidade de Zack Snyder, sem dúvida alguma.
Do Rorschach nem vou falar muito, porque já virou praticamente um consenso quão bem interpretado ele foi durante todo o filme por Jackie Earle Haley. Um trabalho brilhante de composição de personagem. A voz rouca, sempre num tom bem baixo? Perfeita!
Outro detalhe que não me agradou no filme, já apontado por muitos críticos, foram as maquiagens de alguns atores simulando envelhecimento. Carla Gugino ficou muito longe de parecer uma idosa de 67 anos. Digamos que o responsável por sua maquiagem foi bonzinho demais a ponto de preservá-la "pegável" mesmo com a idade que alega ter.
Também andei lendo por aí muita gente criticando a máscara que enfiaram em Robert Wisden pra fazê-lo parecer-se com Richard Nixon, com o que não dá pra discordar.
Mas, há muitos aspectos positivos no filme. A trilha sonora é inspirada, conseguindo na maior parte do tempo transmitir o clima de cada década retratada pelos inúmeros flashbacks espalhados pela trama. A recriação dos diversos cenários vistos na HQ, como o centro de Nova York, a oficina do Coruja, o presídio, ficou excelente. Não foi a toa que Dave Gibbons, o desenhista de Watchmen, ficou tão emocionado ao entrar pela primeira vez na Archie, a nave do Coruja, construída para o filme. Deve ter sido uma experiência surreal pisar dentro de sua própria criação.
Desagradou-me um pouco as liberdades tomadas por Snyder ao retratar a força física dos personagens, especialmente na batalha final do Ártico. Eram todos seres humanos normais, pôxa! Não precisava daquele show de saltos impossíveis, e gente quebrando paredes com murros. Mas, fazer o que...
O final... Bem. É como muitos disseram, dentro da lógica adotada pelos roteiristas da adaptação pra construir o plano final do "vilão", funcionou muito bem. Ainda gosto muito do final da HQ, mas o do filme não chegou a comprometer a essência do original (embora ainda acredite que a visão de uma lula gigante em meio aos destroços de Nova York soaria mais impactante que apenas um monte de prédios em pedaços).
Enfim, uma adaptação tão ousada quanto pôde ser num circuito comercial. Violência gráfica e nudez como jamais vistas numa adaptação de quadrinhos pro cinema (fiquei surpreso em ver que o Snyder conseguiu convencer os figurões de seu estúdio de que dava pra mostrar o pinto do Manhattan sem parecer chocante).
Agora é aguardar a versão director's cut, que promete ter 40 minutos a mais, e a inclusão de seguimentos em animação adaptando os famosos Contos do Cargueiro Negro, entre outros detalhes pra fazer os fãs nerds ainda mais felizes. Quando conferi-la voltarei a falar de Watchmen por aqui.
Wolverine: Inimigo do Estado
E cá estou falando de mais um trabalho de Mark Millar, uma semana depois de escrever minhas impressões sobre sua fase no Quarteto Fantástico. Desta vez a pauta é sua fase como escritor da revista mensal de Wolverine, concluída há pouco menos de 4 anos atrás.
Recentemente, embarcando na onda de atenções voltadas para o personagem graças ao lançamento de seu filme solo, a Panini Comics relançou um encadernado contendo todas as doze edições dos dois arcos escritos por Millar e desenhados por John Romita Jr., todas devidamente apresentadas num formato luxuoso, capa dura, papel brilhante, de boa gramatura. Enfim, aquela frescurada toda que adoramos ter para que a história pareça ainda melhor aos nossos olhos. E que história!
A premissa de toda a fase de Millar em Wolverine é muito simples. O Tentáculo e a Hidra, duas organizações criminosas terroristas do Universo Marvel, armam uma emboscada para o Sr. Logan. Já nas primeiras páginas ele é morto (depois de trucidar algumas dezenas de ninjas mortos-vivos, obviamente), e ressuscitado através da magia negra dominada pelos sacerdotes das sombras do Tentáculo. Com isto, agora eles têm total controle sobre Wolverine, transformando-o numa arma humana a seu serviço.
A primeira metade do encadernado compõe o arco que dá nome à edição. É simplesmente Wolverine enfrentando os maiores figurões da sociedade super-heroística da Marvel Comics, em seqüências de luta e ação que conseguem se tornar a cada hora mais empolgantes. Tudo isto muito bem encenado graças aos desenhos competentes e precisos de John Romita Jr.
E aqui eu aproveito pra abrir um parêntese sobre John Romita Jr. Já faz alguns anos que sou implicado com a opinião de alguns amigos meus a respeito desse veterano dos quadrinhos, cujo traço é bastante subestimado. Seus desenhos são de uma simplicidade mais do que apropriada para a cinética constante exigida pela história. Sem detalhes desnecessários. É um traço solto e estilizado na medida certa, sem chamar tanta atenção para si, estabelecendo um equilíbrio apropriado entre o texto e as imagens. Consegue transmitir tanto a brutalidade das seqüências de pancadaria, com músculos selvagemente contraídos, a fúria exalando de olhos e bocas, como a graciosidade dos movimentos ninja de Elektra, em seu passeio seminua numa noite fria em Nova York, antes de ser emboscada por mais um bando de ninjas do Tentáculo. Falando nela, notem o sutil, quase imperceptível, sorriso de fascínio disfarçado estampado no rosto da ex-assassina ao presenciar Wolverine dando cabo de seis agentes da SHIELD ao mesmo tempo. É por detalhes assim, acrescidos em sua interpretação dos roteiros que lhe encarregaram de adaptar, que John Romita Jr. merece uma menção mais do que honrosa aqui.
O mesmo posso dizer de Klaus Janson, o arte-finalista de seus desenhos, dando o peso adequado às cenas, sem excluir a vibração dos traços de Romita. Seu pincel solto, muitas vezes borrado, inquieto, casa perfeitamente com o estilo do desenhista.
E os desenhos de Romita nunca foram tão bem tratados por um colorista como nestas histórias. Toda a atmosfera subentendida nos cenários e na composição das cenas é trazida à tona na colorização digital de Paul Mounts, cujo trabalho atinge o ápice na seqüência introdutória do segundo arco do encadernado, Agente da SHIELD, quando temos um vislumbre da origem do vilão Gargan, treinando com sua espada em meio a folhas secas de uma floresta em pleno outono. O traço de Romita, a arte-final de Janson, e as cores de Mounts combinam de forma sublime nestas páginas da mesma forma que nas páginas finais da história, cuja melancolia não seria tão bem transmitida sem toda a sensibilidade com a qual trabalhou com as cores digitais.
Mas, o foco principal de Millar é a ação praticamente ininterrupta. A intenção do autor ao longo de toda história é facilmente notável: explorar todo o potencial agressivo de Wolverine das mais variadas formas. Ele sabe muito bem o que fazer com um baixinho invocado dotado de fator de cura, esqueleto e garras de adamantium. Seu Wolverine tem tanto os conflitos psicológicos gerados pelo contraste entre a impulsividade de seus instintos animais e seu lado humano, como a cabeça quente de um ex-assassino que só quer saber de derramar o sangue daqueles que ferraram com a sua vida. E esta sede de vingança chega ao melhor momento de toda a trama, tão memorável e clássico quanto a primeira missão solo de Wolverine nos X-Men (quem é leitor de longa data, ou pelo menos conhecedor das fases mais clássicas do grupo, sabe que estou falando do resgate na mansão do Clube do Inferno, durante a Saga da Fênix), quando, numa seqüência de ação e porradaria de tirar o fôlego, ele invade o covil do Tentáculo montado num Sentinela. Cena pra ficar gravada na memória por muito tempo!
Inimigo de Estado é Mark Millar, mais uma vez, escrevendo um novo roteiro de seus sonhos para um filme de super-heróis que dificilmente será adaptado para o cinema. Toda a história transpira "blockbuster", que se um dia for convertida em filme, certamente proporcionará uns bons "orgasmos nérdicos" neste que vos escreve. Mas, enquanto isto não ocorre, dá pra eu me contentar com o bom e velho Millar atacando como escritor de mais uma história exemplar de super-heróis, entregando o que tanto gostamos de ver em matéria de ação e selvageria mutante, sem restrições orçamentárias.
24 horas - 7ª temporada
Não poderia deixar de passar minhas impressões a respeito do final da 7ª temporada de 24 horas, que terminou como sendo a melhor desde o início da série, na minha opinião de admirador da mesma.
Jack Bauer nunca buscou tão intensamente redenção como nesta seqüência de episódios. Nunca esteve tão próximo do fim de sua jornada. Nunca soou tão humano. E apenas por isto os roteiristas do seriado já merecem muitos créditos (assim como Kiefer Sutherland).
Mas, não são apenas estes os seus méritos. Mais contidos que nas temporadas anteriores, os responsáveis por mais este dia na vida do ex-agente da UCT, souberam trabalhar muito bem com as reviravoltas na trama, sem jamais soarem forçados (pelo menos não de maneira gritante o suficiente pra eu me lembrar agora), como ocorreu tantas vezes em temporadas anteriores. E mesmo assim conseguiram ousar no nível a que chegaram as muitas ameaças que surgiram no decorrer da temporada.
Kiefer Sutherland continua a cada dia mais a vontade interpretando Bauer, mas desta vez o destaque ficou pra veterana Cherry Jones, que interpretou a primeira presidente dos Estados Unidos, passando todo ar de formalidade exigido pelo papel, sem com isto ignorar o lado humano de uma mulher na posição em que se encontra. Nos episódios finais da temporada, em especial, ela foi brilhante.
Outro que merece elogios é Sean Callery, responsável pela trilha sonora dos episódios. Não me recordo se foi ele o responsável pela trilha das temporadas anteriores, mas nesta as músicas foram um das grandes responsáveis por estabelecer o clima sombrio e tenso que permeou toda a temporada, outro fator que contribuiu pra torná-la tão envolvente.
Por fim, é reconfortante saber que os criadores da série não se esqueceram da trama maior que vinha se desenvolvendo ao longo das últimas temporadas, envolvendo um grupo de figurões americanos conspirando contra o governo. Finalmente resolveram jogar um pouco mais de luz nisto, e tudo indica que este será o foco principal da próxima temporada de 24 horas, que pelo pouco de informações divulgadas a respeito promete ser a última da série, o que eu sinceramente espero que seja verdade. Jack Bauer merece um pouco de paz, e nós, que o acompanhamos há mais de 7 anos, merecemos um final digno para uma série que nos proporcionou tantas horas de taquicardia, unhas roídas, e ansiedade à flor da pele esperando que a semana seguinte chegasse logo pra termos mais uma hora de mais um longo dia na vida de Jack.
Postado por Rodrigo Ferreira às 1:25:49 PM
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